Autor ilhavense de 33 anos acaba de publicar o livro “Sob a forma do silêncio” – coleção “Elogio da Sombra”, da Porto Editora (ver caixa) – e não descarta novas aventuras literárias. Doutorando em Estudos Literários pela Universidade de Aveiro, confessa que gostava de estrear-se no mundo dos romances. Com várias publicações dispersas, vem recebendo distinções em prémios literários, tendo sido também selecionado para a mostra nacional do Concurso Jovens Criadores. Participou, ainda, na VIII Bienal de Jovens Criadores da CPLP.

Estudou comunicação – primeiro, no ISCIA – Instituto Superior de Ciências da Informação e Administração –, onde se licenciou, e, depois, no Porto, em ciências da comunicação – e estagiou numa redação de um jornal. O jornalismo esteve em cima da mesa?

Sim. Mas, entretanto, segui outros caminhos. Acabei por fazer um segundo mestrado em Estudos Editoriais, na Universidade de Aveiro e, neste momento, estou a fazer o doutoramento.
Fui para comunicação por causa do gosto pela escrita. E como o curso no ISCIA já dava para áreas semicriativas, nomeadamente, marketing, achei que era uma boa opção.

E como é que surge a escrita?

A escrita foi surgindo desde a adolescência. Ia escrevendo, só para mim, sem grandes pretensões. E fui continuando a minha carreira como “leitor”. Sou um grande leitor.

Consta-se que chega a ler mais de 100 livros num ano?

Tem sido 104 livros por ano, dois por cada semana. Este ano, por causa de estar a fazer o doutoramento, o meu objetivo fica-se pelos 52 livros.

É um compromisso?

Sim. Um compromisso assumido no “Goodreads”, que é uma rede social de livros. A maior parte dos utilizadores fazem um auto-desafio. Em 2020, propus-me a ler 52. No ano passado li 164, mas muitos eram de literatura infantil, que é a minha área de estudo.

Faz investigação em literatura para a infância e juventude…

Apesar de os meus hábitos de leitura terem surgido mais tarde e de nunca ter tido muito acesso à literatura infantil, acabei por me centrar nesta área em certa medida devido a uma professora que, curiosamente, também é de Ílhavo. A professora Ana Margarida Ramos conseguiu entusiasmar-me muito para a área e, quando surgiu a oportunidade de fazer o doutoramento, acabei por dedicar-me à literatura infantil.

E já escreveu algum livro para crianças?

Não. Na realidade, a literatura para a infância é o mais difícil. Porque não pode ser uma literatura mais fácil, mais simplista. É mais simples, para poder ser compreendida pelas crianças, mas no limite tem de ser para toda a gente, incluindo para as crianças. Ou seja, é o mais difícil: agradar a qualquer pessoa, incluindo às crianças. Tem de ser simples e sofisticada ao mesmo tempo.

Acaba de publicar “Sob a forma do silêncio”. Porquê um livro de poesia?

Tanto escrevo prosa como poesia. Já tinha publicado, como coautor, um livro académico, com o título “Tendências Contemporâneas da Investigação em Literatura para a Infância e Juventude”. Mas [este “Sob a forma do silêncio”] foi o primeiro livro exclusivamente da minha autoria.
Já tinha alguns contos publicados – alguns receberam prémios literários e foram publicados nas antologias –, mas a oportunidade para publicar este livro acabou por surgir de forma inesperada. Já tinha muita poesia escrita e foi uma amiga minha que falou ao Valter Hugo Mãe, coordenador desta coleção, sobre os meus poemas. Ele pediu-me para ler alguns poemas, e como eu já tinha o livro praticamente preparado, não tardou a dizer-me que queria publicá-lo no âmbito da coleção “Elogio da Sombra”.

A que se deve este título, “Sob a forma do silêncio”?

Este livro é a minha quebra do silêncio, e eu falo disso logo no primeiro poema, que é o prefácio. E também porque a maior parte dos poemas segue a vida e a obra do filósofo austríaco. O trabalho dele é na área da lógica, filosofia da matemática, filosofia da mente, mas também filosofia da linguagem. E como eu não consigo não questionar sempre a linguagem e os seus limites, encontrei sempre algum refúgio na filosofia do Wittgenstein.

Porquê Wittgenstein?

Ele teve uma vida muito interessante. E eu até comecei pelas curiosidades da sua biografia e só depois fui tentar compreender a sua filosofia. Ainda que, tenho de reconhecer, Wittgenstein seja de compreensão difícil. Como não tenho backround de filosofia, às vezes, fico fora de pé, mas isso também me agrada. Quando não estou a entender é quando fico mais obcecado para tentar compreender.

A sessão de lançamento do livro aconteceu no Porto. Está prevista uma apresentação aqui na sua terra natal?

Sim. Vai ter de acontecer. Tenho aqui a minha família e amigos e as pessoas quase me exigem isso. É natural. Inclusive, há um poema do livro, Náufragos [que pode ler ao lado], que é inspirado naquilo que fui ouvindo da minha avó paterna.

Equaciona escrever um romance?

No seguimento do doutoramento, que obriga a uma grande disciplina, poderei dedicar-me a um romance ou uma narrativa maior. Já tenho algumas ideias. Pelo menos, uma que vai ser quase que inevitável eu explorar…

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