O Baile de Carnaval

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A Amália estava mesmo a ver que mais dia menos dia, tinha que resolver lá por casa um problema com as filhas. O carnaval estava mesmo em cima e com ele os dias de folia que eram tão queridos pelas cachopas. Estavam na idade de gostarem do jogar ao carnaval, ajuntarem-se aos grupos que se formavam nas várias ruas e becos e passearem em brincadeiras da época.

A Teresa e a Alice já não eram pequenas, mas eram aos olhos de uma mãe as suas meninas e o que mais lhe estava a matutar era a ausência do seu homem sobre as ondas do mar …Mãe! Toda a gente vai, não nos diga que se o pai cá estivesse íamos ao baile e a mãe ia connosco e agora não vamos as duas porque você não pode ir?

Tinham de pensar como iriam usar mais uma vez aquelas farpelas todas que a mãe tinha guardadas de anos após anos e que faziam as delícias de todos pela altura do carnaval. Eram roupas muito fora do tempo, tais como vestidos e fatos antigos, o mais engraçado eram os adereços como chapéus, colares, óculos, estolas e tudo o que servisse para enfeitar alguém como se fora quase uma árvore de natal. Claro que, isto tudo guardado numa arca, a arca das surpresas que religiosamente era o salva vestimenta de muita gente da família, a arca da Amália tinha tudo que era preciso para um carnaval bem ou mal vestido.

Enquanto a Amália ia arrumando a cozinha da ceia, a sua cabeça ia engendrando algo que tirasse as filhas de uma noitada à janela a ver passar todos, a caminho dos bailaricos que num largo qualquer se faziam.
O dia seguinte foi passado com uma certa tristeza, não pairava o cheiro a naftalina, a arca não tinha ainda sido aberta e por mais que a Teresa e a Alice olhassem para a mãe não adivinhavam nada, nem sim nem não …!

– Meninas, temos que fazer o lanche e ir dar uma volta na roupa da arca, vamos ao baile as três, vocês vão bailar e eu vou ver, pois se o vosso pai cá estivesse era o que iria ser. Que alegria, a Teresa tinha um namoradito debaixo de olho e a Alice estava na hora de procurar alguém, uma da outra só havia um ano de diferença. O que ficou combinado é que na rua ninguém as iria reconhecer, nada como fugir a mexericos, ao diz que disse e afinal não tinham que andar nas bocas do mundo. O que valia é que a arca mais parecia a arca do Aladin, tinha de tudo ou quase de tudo. As filhas iam de dondocas, todas enfeitadas, a Amália tinha um fato herdado do avô, o cabelo dentro de um chapéu de Al Capone, a cara com barba e bigode desenhados com carvão e na calada da noite sairiam de casa depois de espreitarem pelas cortinas da sala da frente que não havia ninguém por perto.

Foi um carnaval inesquecível, a Teresa dançou toda a noite com o rapaz que há uns tempos lhe ia arrastando a asa, a Alice ainda não tinha ideia fixa. Ninguém nunca chegou a saber quem era aquele personagem tão altivo, que acompanhava com os olhos tão bonitas e enfeitadas donzelas.
Na hora do regressar, a esperteza da mãe fê-las dar umas voltas bem dadas para despistarem alguma curiosa alcoviteira.

– Ó Amália, então este ano as tuas cachopas ficaram em casa? Para o ano há mais, mas que mãe tu és!

Sim, aquela mãe nesse ano tinha sido uma mãe, o carnaval nesse ano também tinha sido O Carnaval.

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