O isolamento social é a forma mais eficaz de combater a propagação do novo coronavírus e, assim, de proteger a população. Mas esta experiência de confinamento traz vivências inéditas que podem ser geradoras de momentos de maior fragilidade emocional. Há muita informação nova para assimilar e, nalguns casos, para melhor lidar com esta ameaça, poderá ser útil procurar apoio junto dos profissionais de saúde que, neste momento, começam a recorrer a ferramentas alternativas para prestar ajuda. É o caso de Carolina Madaíl, psicóloga clínica, que disponibilizou recentemente um serviço de apoio psicológico online, por videochamada. “A particularidade do que estamos a viver levanta questões relativamente à saúde mental” e “todo o apoio é importante”, afirma. 

O confronto com uma mudança tão repentina deixa “pouco espaço ao processo de adaptação, essencial para conseguirmos ganhar algum controlo sobre nós próprios e sobre as circunstâncias”, diz Carolina, pelo que é fundamental “naturalizar reações” associadas a alguns sentimentos: “a ansiedade” de não saber o que vai acontecer ou quanto tempo será necessário permanecer em isolamento; “o medo” relativamente à própria saúde e à daqueles que lhe são próximos; “a angústia” da permanente atualização do número de novos casos em Portugal e da chamada do amigo preocupado que ouviu dizer que há mais não-sei-quantos infetados em Ílhavo, mesmo aqui à porta; “a inquietação” quanto às percentagens de evolução, os gráficos indecifráveis e os modelos matemáticos; “a tristeza” de estar afastado daqueles de quem se gosta e, de certa forma, do resto do mundo; “a frustração” de não poder levar a cabo as rotinas e atividades habituais e “as zangas ou conflitos” que advém da inesperada “gestão entre trabalho e família, em muitos casos, comum ao mesmo espaço”. 

Vidas adiadas por tempo incerto

O ser humano habituou-se a planear a sua vida a curto, médio e longo prazo. É uma forma de se organizar e de responder às suas necessidades. No entanto, nesta fase, as pessoas veem a sua vida adiada indefinidamente: aquele projeto que estavam a começar a desenvolver e que fica na gaveta; os bilhetes para aquele espetáculo a que queriam ir com os amigos e que agora foi cancelado ou a viagem, em família, que já andava prometida há tanto tempo e que, agora, não sabem quando vai poder realizar-se. 

“De forma a minimizar o impacto [do stress e frustração gerados pelo cancelamento ou adiamento desses planos], importa encontrar um significado para o que estamos a fazer durante este período de isolamento. A proteção de um indivíduo contribui para a proteção daqueles que lhe são queridos e da comunidade onde está inserido – este propósito é importante para não nos sentirmos num vazio”, explica a psicóloga.

Outra dica para melhor lidar com este problema é experimentar fazer coisas novas, principalmente aquelas que, por falta de tempo, se tinha vindo a adiar: “Experimente reinventar-se, tire um curso online ou dedique-se a novas experiências culinárias; cuide de si e das suas relações, fazendo atividade física e contactando, regularmente e com recurso às potencialidades tecnológicas dos dias de hoje, com familiares e amigos; descubra ferramentas que o ajudam a lidar melhor com a ansiedade (exercícios de relaxamento, meditação, desenho ou escrita)”, recomenda.

Isolamento com crianças

O isolamento social pode ser uma experiência particularmente desafiante para os pais de crianças pequenas. Afinal, como é que se explica a uma criança que, de um dia para o outro, deixou de poder ir à escola, estar com os amigos, fazer algumas das atividades de que mais gosta, visitar os avós ou, sequer, sair de casa?

A alteração das rotinas diárias e o clima de medo ou incerteza podem fazer com que as crianças se sintam tristes, ansiosas, irritáveis ou confusas; podem levar a momentos de maior dependência ou aborrecimento, “birras” ou dificuldades em adormecer. Uma prova de fogo para a paciência, a resiliência e a criatividade dos pais que, no meio disto tudo, estão eles próprios a viver uma situação sem precedentes e desgastante. 

Mesmo que a criança não pergunte diretamente, “é crucial que os pais ajudem os filhos a compreender a importância de passarem menos tempo fora de casa, usando um discurso adequado à idade e filtrando a informação útil”, aconselha a profissional de saúde. É, também, de todo o interesse que a criança não perca a noção das suas rotinas e responsabilidades. Neste período, os pais terão um papel ainda mais importante no acompanhamento das obrigações escolares dos filhos que, por estes dias, lhes têm chegado por via eletrónica. Mas Carolina Madaíl avisa também para a necessidade de “não esquecer o autocuidado dos pais e, dentro do desafio que é viver esta experiência com crianças, também eles poderem encontrar momentos para se tranquilizarem e comunicarem as suas preocupações de forma mais liberta, com outros adultos”.

A resistência sénior

Principalmente nas faixas etárias mais avançadas, ainda há quem desvalorize o vírus, quem ache que isto é tudo um exagero e, contra todas as recomendações das autoridades e das entidades de saúde, resista ao isolamento, insistindo em fazer a sua vida normal, sem precauções. Na opinião de Carolina Madaíl, o motivo destes comportamentos não reside na falta de informação. “A informação tem sido bastante divulgada em todos os meios, desde a televisão, aos jornais ou às redes sociais”. Para a psicóloga, esta postura perante a pandemia pode estar relacionada com a “perceção da quantidade de dificuldades pelas quais [os mais velhos] já passaram, como se isso representasse uma ideia de imunidade”. “As adversidades que estas pessoas viveram tinham, em muitos casos, uma representação mais facilmente observável. As guerras eram físicas e envolviam luta corporal, enquanto que esta é uma guerra invisível, não tem rosto, e para a ganhar o que lhes é pedido – ficar em casa – é exatamente o contrário daquilo a que foram habituados”, explica. 

Numa conjuntura como a que vivemos, muitas famílias vêem-se confrontadas com a impossibilidade de estarem juntas e é inevitável ter uma preocupação ainda maior com o bem-estar uns dos outros. As tecnologias cumprem aqui um papel determinante já que ajudam a combater a distância e a amenizar a saudade. No entanto, “principalmente com pessoas mais velhas, pode ser difícil manter esta proximidade virtual e acompanhar mais prontamente as suas necessidades”. Nestes casos, alerta Carolina, “é importante que família ou amigos tomem conhecimento de medidas em curso nos municípios e freguesias onde estas pessoas residem e, tendo em conta que muitas poderão pertencer a grupos de risco, perceber e solicitar alguma ajuda junto destas instituições”.

E depois da pandemia?

Dure o que durar, eventualmente, esta crise há de passar. Mas só quando isso acontecer, quando acordarmos do pesadelo que tem atormentado as últimas semanas, é que vamos perceber se o mundo, tal como o conhecemos, mudou. Quem pode (e, certamente, vai) mudar somos nós. Pelo menos no primeiro rescaldo deste isolamento, é provável que as pessoas sintam um misto de emoções que dificulte o regresso às rotinas de encontro e interação social. É, por isso, essencial não perder hábitos, ainda que tenhamos de os reinventar. “Quando esta crise amenizar e pudermos retomar rotinas, terá que haver um novo processo de adaptação, mas que poderá ser feito de forma mais tranquila porque a perceção de ameaça não estará tão presente”, assegura Carolina. Ainda assim, a psicóloga apela a que cada um “esteja atento à forma como vai respondendo ao regresso à ‘normalidade’, sendo que, no caso de as dificuldades se prolongarem ou se tornarem limitativas, pode ser importante procurar ajuda profissional”.

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