Tempo para contar

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Ao fim de dois meses fechado em casa já não sabia se sabia conviver em sociedade e por isso, e só por isso, saí à rua no fim-de-semana passado para fazer o teste. Não esse, o maldito, mas o teste social.

Sair não é o fim do mundo, com os cuidados certos. Também não seria o fim do mundo sem os cuidados certos: que bom seria podermos evitar o fim do mundo com meia dúzia de cuidados rotineiros. Enfim, é mais um conjunto de coisas a fazer antes de abandonar a zona segura, higienizada do nosso lar antes de enfrentar essa ameaçadora entidade que é a rua.

Mas a rua valerá sempre o esforço porque se não for por ela não valerá a pena esforço nenhum. Máscaras na cara, álcool-gel no bolso e atenção às distâncias. E, é claro, não abusar, não facilitar, essas coisas todas que a gente sabe. Mas há que procurar pontos de fuga a este inferno do isolamento.

Será sempre estranho ver tantas caras tapadas por máscaras em ruas onde nos habituámos a reconhecer sempre toda a gente. Mas será sempre revitalizante reconhecer pessoas por detrás das máscaras; apesar das máscaras. É bom que, para nosso bem, Hipócrates não faça de nós hipócritas, e talvez por isso seja das coisas mais comoventes do nosso tempo testemunhar um sorriso sincero e fraterno atrás desses escudos de pano que envergamos para travar este infame invasor.

E, por isso, rumei ao parque de merendas da Murteira, para encontrar amigos cujos olhos não se encontravam perante os meus há sessenta e tal dias. Cada um com o seu farnel, trocámos conversa e experiências com máquinas de barbear e cortes de cabelo “faça-você-mesmo” ou com estratégias criativas de fazer compras em segurança. Numa roda alargada, na negociação possível entre nós e o infame, tirámos a barriga de misérias. Uma coisa simplesmente bela que, como diria o Cesário Verde, a propósito de outro piquenique, “sem ter história nem grandezas, em todo o caso dava uma aguarela”.

Não tive grandes histórias para contar. Pequenos episódios, apenas. Pequenos pontos de vista sobre este tempo que nos é tão estrangeiro ainda. Mas ouvir, ouvir várias vozes em várias conversas que se cruzam e interferem, ouvir, esse verbo maravilhoso, valeu todo o desconforto.

Há que fazer o esforço, há que negociar. Procurar não encontrar demasiado conforto nas paredes das nossas casas. Não interiorizar o confinamento nos nossos gestos mais importantes. Se possível, quando possível. Como quem reaprende a andar.

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