Haja bom senso, por favor

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Maria José Santana (Diretora d'O Ilhavense)

Vou chamar-lhe Maria para proteger a sua identidade, porque se há coisa que não lhe tem faltado são olhares discriminatórios e comentários descabidos. Vou chamar-lhe Maria, mas também podia falar no plural, aludindo à Helena, à Rosa ou à Joaquina, uma vez que o problema parece não estar a atingir uma pessoa só. Efetivamente, e por mais que nos custe a acreditar, há várias pessoas neste nosso concelho a serem alvo de discriminação por parte da comunidade porque estiveram infetadas com Covid-19. 

“Qualquer uma de nós se sente como leprosas…”, contou-me Maria, uma dessas amigas de infância com a qual já não privo há muito. É funcionária do Lar de São José e, tal como outras companheiras de trabalho e utentes da instituição, esteve infetada. Isolou-se, tratou-se mas, agora, está a ser vítima de uma generalizada falta de bom senso por parte das pessoas com as quais se vai cruzando. 

“O mais grave é quando afeta os mais próximos de nós…”, acrescentou, dando-me a entender que as atitudes discriminatórias atingiam não só os que estiveram infetados, mas também os seus familiares diretos. Como assim? “É incrível como as pessoas podem ser cruéis”, prosseguiu.

Qual é a parte do conceito de respeito pelo outro que essas tais “pessoas” não percebem? Passará pela cabeça de alguém que estas trabalhadoras se infetaram porque lhes deu na real gana sujeitarem-se ao vírus? Não será de esperar que a Maria, a Helena, a Rosa e a Joaquina tenham seguido à risca os conselhos das autoridades de saúde para protegerem as pessoas à sua volta? E os seus familiares, que culpa têm? Haja bom senso, por favor.

É importante que não nos esqueçamos do essencial nesta batalha: há pessoas que não podem ficar confinadas em casa, trabalhadores dos mais variados setores que não puderam (nem podem) parar, cidadãos que tiveram de correr o risco. Não apanharam o vírus porque foram à praia ou uma esplanada qualquer. Quando muito, podemos discutir a forma como as empresas ou instituições responderam a esta nova situação e os procedimentos que adotaram. Daí até passar para o insulto vai um grande e vergonhoso passo.

Gostava muito de acreditar que este relato da Maria dizia respeito a um ato isolado. Vou torcer para que assim seja, ainda que tenham surgido, nos últimos dias, sinais preocupantes. Depois que se soube que o Lar de São José estava com novos casos de infeção, “o que estava a começar acalmar, recomeçou”, contou-me a Maria.

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