A minha geração deve ter sido a última a conhecê-lo. Andaria pela vintena quando ele morreu. Já não recordo o seu verdadeiro nome, nem sei se alguma vez alguém o soube. Bastava ser o Ester… não sei porquê, mas era assim conhecido. Diziam, que avariou do juízo de tanto estudar e ler… assim como o D. Quixote. Foi especialista em qualquer coisa relacionada com aviões e aviação… qualquer coisa do alto… “andava com a cabeça no ar” … “andava sempre na lua!” … cá para mim, andava sempre a sonhar. Trajava impecavelmente. De fato cinzento claro (seria sempre o mesmo, ou teria vários iguais?…), lenço na lapela, colete e gravata. Morava ali… à entrada nascente de Alqueidão… pelas ruas da Vila, pacato e sereno, caminhava com o seu sonho e a sua loucura, sempre cozido com as paredes, gesticulando suavemente como um maestro e de lábios a bulir… Penso, que como o cavaleiro da triste figura, à hora da morte toda a lucidez lhe veio.
Porque é assim que Deus gosta de lidar com génios…

Por Augusto Nunes

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