Talvez no 5º ano do Liceu, encontrei um poema cujos primeiros versos me entusiasmaram a ler tudo. Era raro. “O crime do Padre Amaro” o canto nono dos Lusíadas foram lidos e relidos só porque eram proibidos. O resto… passeava na pasta velhinha entre a casa e o liceu. Mau exemplo que eu fui!
O dito poema começava assim: “Mulheres de compra e venda, impúdicas bacantes…”. Dicionário na mão porque o senhor google ainda não tinha nascido, as ditas bacantes foram dissecadas pela minha curiosidade imberbe. “Quando for grande, quero ser bacante” dizia eu para me livrar daquele jugo de lavar louça, passar a ferro, esfregar o soalho com sabão amarelo que ao sábado a tarde me aguardava na casa da mãe. Invejei o far niente que nunca granjeei.
Mudaram os tempos, mudou a vontade. Camões sobreviveu fora do canto nono… As mulheres que fui encontrando a caminho das escolas onde trabalhei, mini saia e decote a desafiar o inverno, as caras meio desdentadas, saia curta, fioco no fio, a surgirem por detrás dos pinheiros da mata, arriscando-se a não ganhar para o pão dos filhos, dos netos, do chulo que à noite lhes acerta o passo porque não souberam trabalhar à maneira, essas não eram as bacantes do meu poema. Essas eram as mulheres de compra e venda, mais venda do que compra, as de “vida fácil” desavergonhadas, que querem é vida boa sem louças a lavar, sem soalhos a esfregar, essas… Nunca foram bacantes e pior nunca se sentiram mulheres de um homem só.
Nesta data de parabenizar a Mulher, pergunto-me e à sociedade onde vivo: “Quando será o dia em que as mulheres poderão exercer a prostituição legal (porque sempre existirá), em locais seguros, limpos, com cuidados médicos necessários, sem colchões feitos de caruma ou ervanços agrestes”.
Quando chegará o dia da mulher?
Neste oito de março de 2021 ainda não é data de comemoração. Está fora de prazo!

Por Zita Leal

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