Como agora não saio muito, tendo a perder-me nessa vadiagem digital que propicia a plataforma YouTube, sorvedouro de tempo que nunca recuperarei.
Descobri recentemente um género de conteúdo que me deu que pensar. Existe uma quantidade assinalável de vídeos, muito interessantes, criados por imigrantes a residir no em Portugal e, alguns deles, no concelho de Ílhavo ou na região, nos quais relatam a sua experiência neste lugar, partilham conselhos de ordem prática, mostram pontos de interesse – o Museu Marítimo de Ílhavo, o Museu da Vista Alegre, a Costa Nova, etc. – ou comunicam as condições económicas em que se vive, os preços do imobiliário, as condições de mobilidade, disponibilidade de comércio, e outras coisas. São relatos do que é morar ou “viver em Ílhavo”.
Os vídeos são, parece, dirigidos na sua maioria a outros imigrantes brasileiros em Portugal ou, suponho, a pessoas que pretendam vir viver para Portugal.
É um ponto de vista muito interessante, por ser um olhar externo, mais distanciado, com um contexto diferente do de quem já está mais do que habituado aos lugares, sem os estranhar ou questionar.
Diria até que são lugares bem mais positivos do que costumam ser os característicos dos “nativos”, sempre mais críticos, como talvez seja normal. Confesso que, lá para o terceiro ou quarto vídeo que vi, já começava a pedir “digam qualquer coisa de mal, vá. Isto não é tudo maravilhoso”. Mas é normal, estamos a falar dos primeiros tempos de um namoro com uma cidade, são sempre feitos de algum encantamento.
O que esta “descoberta” me levou a pensar foi, no entanto, muito mais intrigante para mim. Quantas nacionalidades
existirão no nosso concelho? Quantas pessoas estarão a iniciar cá uma vida, a escolher esta cidade como sua, pessoas com experiências e contextos tão diversos quanto interessantes?
E, como segunda derivada dessa questão, outra: que espaço de participação e representação têm estes cidadãos na nossa vida comunitária? Onde é que este espaço sociocultural que é a cidade incorpora as suas dificuldades, os seus anseios, os seus projetos e as suas experiências?
O ilhavense de hoje é múltiplo, feito de várias pronuncias, várias histórias, várias gastronomias. Talvez fizesse sentido começarmos a revisitar o nosso imaginário do que é esta cidade, de quem nela vive, e a incorporar uma quantidade mais vasta das experiências que nela coabitam. Afinal, a cidade é feita das suas pessoas e das que a escolhem como sua.

Por David Calão

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