É Natal. As árvores estão decoradas. As lareiras acesas. Os anjos já arranjados. Os coros afinados.

Até o The Economist antecipou o sapatinho: Portugal é a economia com melhor desempenho em 2025. A maior, a mais bonita, a mais inteligente, a mais promissora economia do mundo. De todas as economias do mundo — de todas, mesmo — é a mais doce. “Doce como um pastel de nata”, escreve o jornalista.

A inflação está controlada. O PIB cresce acima da média. A bolsa está efervescente.

É também uma economia verde. Verdinha, ainda pouco madura, que transforma campos em extensões intermináveis de painéis fotovoltaicos espelhados, a produzir energia limpinha. Para uma economia com quase 900 anos, não está nada mal. Só pode ser um milagre de Natal.

Mas o Governo diz-nos agora que temos imigrantes a mais.

Em agosto, a ministra do Trabalho e da Segurança Social denunciou um gravíssimo caso de abuso: as mães portuguesas estariam a exercer em excesso o seu direito legal à redução do horário para amamentação. O alerta instala-se.

Pouco depois, surge a inevitável conclusão: o mercado de trabalho é demasiado rígido.

A solução apresentada é conhecida: despedir mais e melhor, reduzir direitos parentais — como o luto gestacional — fragilizar ou extinguir contratos coletivos de trabalho, aumentar contratos a termo e reduzir dias de descanso e férias.

Explica-nos o Governo que estamos reféns dos nossos próprios direitos e que, se não tivermos a “coragem” de abdicar deles, jamais o The Economist nos voltará a referenciar como a “Economia de 2026”. Afinal, só um milagre de Natal explicaria os resultados de 2025.

É verdade que não estamos habituados a boas performances económicas, mas explicam os especialistas que esta proeza não é sobrenatural e resulta sobretudo da comparação com o crescimento anémico das restantes economias, em particular as europeias. Não sendo, por isso, uma boa notícia, dá ainda assim algum alento para o futuro. E, apesar do discurso vigente, demonstra-se que o atual quadro laboral não é
excessivamente protetor. Talvez até o tão criticado contexto “socialista” dos últimos anos tenha contribuído para a resiliência económica e para o controlo da inflação.

A verdade, como sabemos, é que o nosso quadro laboral continua profundamente marcado pela reforma introduzida por Bagão Félix, no Governo de Durão Barroso, tendencialmente liberal. É por isso que, em vésperas de uma Greve Geral, a luta parece justa. O que nos apresentam como “necessidade económica” é sempre o mesmo: precariedade como instrumento de competitividade.

É verdade que as greves perturbam a vida de todos. Interrompem rotinas, causam incómodos e, em alguns casos, provocam perturbações sérias, sobretudo em áreas sensíveis como a saúde. Espera-se, naturalmente, que sejam sempre garantidos os serviços mínimos essenciais. A greve condiciona até quem não quer fazer greve.

Ainda assim, não posso deixar de expressar a minha solidariedade para com todos os trabalhadores que prescindem do seu salário para lutar pelos seus direitos. Porque esta é uma luta coletiva. É uma luta por um país onde seja mesmo mais “fácil uma pessoa divorciar-se do que despedir um trabalhador”. Porque é o trabalho justo, seguro, protegido e valorizado que garante autonomia, dignidade e liberdade de todos.

Texto publicado no nº 1388 d’O Ilhavense, de 1 de janeiro de 2026.
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