Certa parte do país sentiu um certo desconforto ou, pelo menos, uma certa estranheza, ao verificar a decisão do novo Presidente da República em relação à sua residência oficial. E, na incapacidade da perplexidade, acenou com um conjunto de custos que essa decisão poderia acrescer ao tesouro público.
A primeira parte do fenómeno compreende-se. Afinal, para uma certa parte do país, é incompreensível que alguém, tendo essa opção, não queira viver em Lisboa, hoje em dia um dos territórios mais exclusivos da Europa.
A segunda, decorre da primeira. Para uma certa parte do país, custa demasiado ter um país. Não é apenas. Custo de ter um Presidente da República a viver fora da capital. É o custo de existir país fora dela, de existir inteligência, cultura, política ou engenho fora dela. Porque nem sequer se concebe uma existência digna desse nome fora dela.
Não admira, portanto, que a sua presença desse país apenas se faça notar quando alguma tragédia é demasiado feroz para que se ignore – quando algum comentador das várias centenas diariamente ao serviço começa a receber telefonemas dos primos “da terra” e se começa a preocupar. Ou quando alguma história de um cariz mais picaresco surge com sal suficiente para dar algum sabor às diárias sensaboronas que os jornais nacionais nos servem diariamente, constantemente a fazer croquetes e rissóis dos restos noticiosos do dia anterior.
Ora, para uma certa parte do país, é uma chatice termos um país, e trocava-se tudo por umas estações de serviço onde se comesse bem, mas não houvesse gente a viver e a chatear.
Felizmente, a imprensa local vai sobrevivendo para recordar que há país, e um país que escapa constantemente por fora das palas que esse certo país, que nos serve diariamente uma pasta sintética de factos em que julga ter resumido “o país” teima em querer ignorar. Esse país, que é a maioria do país, precisa de olhar para si, e entender que lhe fica muito mais cara esta ignorância do que a sua aborrecida teimosia de existir.
Texto publicado no nº 1392 d’O Ilhavense, de 1 de março de 2026.
Assine o jornal aqui.









