Luís Montenegro chega atrasado, porque ainda estava na Festa do Pontal a prometer o regresso da Formula 1 enquanto o país ardia. Alegadamente, atrasou-se mais porque o Líder Parlamentar do PSD apareceu-lhe à frente com um copo de gin tónico. «Está tudo mais controlado, não está?», deverá ter perguntado ao entrar na sala. Alguém lhe diz que Portugal já não arde; pelo contrário, está inundado e há mortos. «Deixem o Luís trabalhar!», dizem companheiros e companheiras em uníssono.

O ministro Castro Almeida toma logo da palavra para perguntar: «Quanto tempo é que isto vai demorar? É que a minha mulher só me fez mala para três dias…» Quando um colega o alerta de que é preciso ir para o terreno e acionar apoios às famílias desalojadas e com os negócios em perda, Castro Almeida repara que se pode sobreviver com o salário de janeiro.

Enquanto a Ministra da Saúde ainda está a tentar perceber por que é que os hospitais estão a funcionar mal e por que é que morrem pessoas à espera do INEM, Leitão Amaro está de mangas arregaçadas, ao telemóvel, com cara de preocupação e a roer as unhas com uma câmara de filmar apontada a si – «vou fazer grande furor nas redes sociais», deve ter pensado. Horas depois apagou o vídeo com banda-sonora épica, porque o povo não é assim tão lorpa.

Ao fundo da mesa, Nuno Melo está rodeado por militares de alta patente e a gritar «Olivença é nossa!», mas ninguém quer saber.

Nisto, a Ministra da Administração Interna, com a demissão no horizonte, decide destapar-se do seu «trabalho em contexto de invisibilidade» e tenta apaziguar o desnorte, dizendo uma e outra vez que «isto é um processo de aprendizagem coletiva». Entra o separador de sketches e damos todos uma grande gargalhada.

O problema disto é que podemos mesmo imaginar um Conselho de Ministros assim. O Governo está tão desacreditado que o que achamos ridículo pode muito bem ser próximo da realidade naqueles momentos de reunião que não assistimos.

Este é o Governo mais alheado e insensível de que há memória. Passos Coelho (que ainda paira fantasmagoricamente) pedia para não sermos piegas, mas sentíamos que acreditava nas suas palavras – era um neoliberal adorador dos tecnocratas da troika e não o escondia, para mal dos nossos pecados. Já Montenegro é alguém que emana uma aura de pouca versatilidade intelectual e que quer ser rico em Espinho (pelo menos, Sócrates queria ser rico em Paris).

Este Governo passou do «não é não» para o ato de normalizar o partido de extrema-direita Chega que, sejamos francos e diretos, deseja acabar com este sistema para impor o seu, criando um regime corporativista à moda de Salazar em que reinam as notícias falsas, as encenações, a bravata e o favoritismo das elites empresariais que rodeiam Ventura.

No meio disto tudo, Montenegro e Leitão Amaro habituaram-nos a que gerir uma crise não é sinónimo de resolver rapidamente os problemas, mas antes cuidar da própria imagem com propaganda.

Na oposição, o Bloco de Esquerda ainda está a tentar perceber de que ribanceira caiu, o PCP muito debilitado ainda sonha com o projeto do proletariado, o Livre já deve ter constatado que só pode contar com Rui Tavares e Inês Mendes Lopes, a Iniciativa Liberal vai mostrando ser um outro Chega mas mais sofisticado e que sabe comer com talheres, e o PS está desaparecido em combate.

Contamos, desde há cerca de duas décadas, com a geração mais formada e técnica da nossa História; no entanto, estamos perante a classe política mais fraca de que há recordação em 50 anos de Democracia – e isso bem se vê pelos nomes de segunda e terceira divisão que se candidataram à Presidência da República.

Estamos entregues à gestão de imagem e das redes sociais – acha que ganha e que tem mais razão quem tiver o maior número de seguidores no Facebook e no Instagram. Já nem sentimos exaltação pelo dia em que vamos votar, porque ficamos bêbados de sondagens e painéis de comentadores sobre essas mesmas sondagens. E pior, há alguém que se alimenta disto tudo para meter uma parte do país contra a outra – é esta a missão do autointitulado quarto pastorinho de Fátima, André Ventura: dividir para reinar.

Salve-se a Democracia, e que saiamos depressa deste pântano!

Texto publicado no nº 1391 d’O Ilhavense, de 15 de fevereiro de 2026.
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