No dia 8 de março comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Nem sempre os dias internacionais disto ou daquilo se vivem com a importância necessária, pois são, em inúmeros casos, apenas ou quase só, pretextos para despesismos comprometidos.
Desejava verdadeiramente que a Mulher, já que tem direito a um só dia, só seu, fosse, nesta data, motivo de reflexão profunda e, sobretudo, de reafirmação do compromisso de que a igualdade de género é uma luta continuada e partilhada por todos.
Sabemos que data de há bem pouco tempo, a cedência de alguma importância para o ser na forma feminina. Resgatando as memórias da história, durante séculos, a mulher foi apenas aquela que criava os filhos, tratava da casa, e ficava escondida atrás da figura de alguém, do homem que a sustentava. Apesar desta importância tão pouco valorizada, mas tão grande na missão que envolvia, se dava nas vistas, seria apenas como objeto decorativo que se gostava de ver e enfeitar. A inteligência não era um fator da sua valorização. Nomes há, de mulheres, que sofreram perseguições, humilhações, maus tratos, apenas porque eram inteligentes, porque escreviam ou vertiam para a sociedade o seu valor participativo.
Hoje, a mulher cresceu. Nas últimas décadas, as mulheres em Portugal alcançaram avanços significativos em relação aos seus direitos e à igualdade de oportunidades. A Revolução de 25 de Abril de 1974 foi um marco fundamental que abriu portas para uma maior participação feminina na vida política, económica e social.
Cumpre aqui recordarmos uma figura, ilhavense – Irene Ribau Esteves, que faleceu recentemente. Era natural e residente na Gafanha da Encarnação. No município de Ílhavo, foi a primeira mulher a assumir um cargo político, o de presidente de Junta da sua Freguesia. Ser mãe, mulher, professora, cidadã comprometida, não a impediu de marcar profundamente a política autárquica durante mais de 40 anos, e influenciar várias gerações de jovens, cidadãos e políticos locais. Referência ao filho, José Ribau Esteves, ex-presidente da autarquia ilhavense e da de Aveiro que, segundo confessou, lhe herdou o bichinho da política, desde os tempos em que, ainda criança, a acompanhava às reuniões do partido. Também a filha, Irene Ribau Esteves Tavares se mantém na Assembleia Municipal há vários mandatos.
Desde a revolução do 25 de Abril que, em Portugal, as mulheres têm conquistado espaços antes inacessíveis, especialmente nas áreas da magistratura, da diplomacia e empresarial, com um crescimento notável da presença feminina em posições de liderança. Essa transformação deve-se sobretudo ao número, cada vez maior, de mulheres com formação académica superior e a medidas que promovem uma participação mais equitativa nos órgãos de decisão. A mulher pode contribuir hoje de maneira significativa para o desenvolvimento económico e social do país.
Mas não chega. A igualdade entre os direitos dos homens e das mulheres ainda está longe de ser uma realidade. Não há apenas disparidade salarial, há também, e sobretudo, a dificuldade em conciliar a vida profissional e a familiar. Em inúmeros casos, as responsabilidades domésticas, familiares e profissionais sobrecarregam o elemento feminino da casa. A gravidez e o parto influenciam desvantagens no acesso ao mercado de trabalho. A violência de género representa outro problema, onde os números não são favoráveis às mulheres. E não vamos hoje considerar o que se passa para além do nosso mundo ocidental… Aí teríamos muito então para dizer, para acusar.
Por isso, eu gostaria que o Dia Internacional da Mulher não fosse uma mera celebração, nem apenas um convite à reflexão das conquistas e dos desafios enfrentados pelas mulheres ao longo da história, mas envolvesse o compromisso contínuo de toda a sociedade de que a igualdade de género é uma luta partilhada por todos.
Por isso, eu gostaria que não fosse necessário “um dia internacional da mulher” que, como os homens, a mulher tivesse direito a não apenas um, mas a todos os dias.
Texto publicado no nº 1392 d’O Ilhavense, de 1 de março de 2026.
Assine o jornal aqui.




![[Editorial] A suspensão da crença](https://oilhavense.com/wp-content/uploads/2026/03/a-suspensao-da-crenca-218x150.png)





