Com a expansão do Cristianismo pela Europa, que começou há cerca de 2000 anos, a Igreja Católica procurou suprimir ou assimilar festas pagãs para facilitar ou obrigar a conversão dos povos.
Um desses casos é o culto da divindade Ēostre (inglês arcaico) ou Ostara (alto-alemão antigo), que se tornou na combinação da celebração pagã do início da Primavera com a Páscoa católica. Tendo isto em conta, delineou-se que a escolha da data da Páscoa siga um cálculo baseado no ciclo lunar, celebrando-se no primeiro domingo após a primeira Lua Cheia que se segue ao início da Primavera. Para além disso, a palavra Easter (Páscoa em inglês) é uma evolução linguística de Ēostre ou Ēastre, a deusa anglo-saxónica da Primavera, da Aurora, fertilidade, amor e renascimento. Já a nossa palavra Páscoa vem do hebraico Pessach, que significa passagem ou salto e que tem a ver com a última praga do Egito, em que, de acordo com escrituras bíblicas, todos os primogénitos não-israelitas pereceram à passagem do Anjo da Morte. Posteriormente, a Páscoa no seio cristão e católico, que agora conhecemos, relaciona-se à crença na ressurreição de Jesus.
A mais antiga referência a Ēostre, ou Ostara, remonta ao ano de 725 e é da autoria do monge inglês São Beda, mas pouco se sabe sobre os ritos ou se realmente foram praticados, até que no Séc. XIX, com a ascensão do neopaganismo germânico, instalou-se um debate académico sobre se o culto existiu verdadeiramente ou se foi uma invenção do monge, sem nunca se ter chegado a um consenso.
Assim, a partir desse século, difusores do folclore, tanto europeus que por cá se mantiveram como migrantes de origens germânicas que se mudaram para os Estados Unidos da América, trataram de propagar histórias e lendas à volta de Ostara, que se transmitem até aos dias de hoje em círculos neopagãos.
Com o reaparecimento mais numeroso e visível de lebres e coelhos nesta altura do ano, diz-se que este é o animal favorito de Ostara, em parte devido à sua facilidade de reprodução. Mas é a partir daqui que as lendas se cruzam e confundem: enquanto alguns relatos dizem que Ostara transformou uma ave em coelho para divertimento das crianças, outros ditos referem que foi uma ave que se transformou a si própria em coelho para agradar à deusa. Contudo, os desfechos são semelhantes: a ave depressa se tornou infeliz por ser um coelho e não poder voar, mas teria de esperar até à próxima Primavera para voltar à sua forma original, altura em que Ostara retoma plenamente os seus poderes para reverter o feitiço. Ainda assim, a viver como um mamífero, o animal continua a pôr ovos. Outras versões dizem que os ovos só reaparecem quando o animal volta a ser uma ave e que é a sua forma de agradecer o renascimento.
Por mais que estas lendas não se difundam grandemente e por mais que as tradições católicas se sobreponham a outros costumes, a simbologia e os atos pagãos sobrevivem na atualidade com a decoração e troca de ovos (ou amêndoas) que representa fertilidade e abundância, acendimento de fogueiras para simbolizar purificação e a luz crescente do Sol (por altura do Carnaval, no interior de Portugal e em algumas regiões alemãs e austríacas), plantação de árvores que reflete novos projetos e nova vida, e o regresso de celebrações ao ar livre.
Seja pela restauração da Natureza ou pela crença na ressurreição de Cristo, sejamos ateus, pagãos ou cristãos, tudo se remete e resume aos nossos ancestrais, celebrando-se agora, em consonância com a Roda do Ano, um momento de equilíbrio, renovação e renascimento.
Texto publicado no nº 1393 d’O Ilhavense, de 15 de março de 2026.
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