Na presente edição, trazemos uma entrevista a Inês Bernardo, autora ilhavense que acaba de publicar o seu primeiro romance, e cujo podcast Biblioteca de Bolso, que mantém em parceria com José Mário Silva, tem armazenados já anos de conversa em torno dos livros. Calha, por ironia do destino, que enquanto preparo este editorial surge uma nova conversa envolvendo o ensino do português e da literatura portuguesa, com a anunciada vontade de se retirar José Saramago da leitura obrigatória no 12º ano de escolaridade.
Batalhas ideológico-culturais à parte (tanto quanto possível: afinal, o que não é ideológico-cultural?), estas notícias, e alguns argumentos invocados para esta decisão, evidenciam um problema antigo, que se tem agravado cumulativamente: o da despromoção contínua do ensino das humanidades.
A possibilidade de se retirar uma obra do plano por ser difícil, ao invés de se questionar o que acontece para que os alunos não desenvolvam capacidades interpretativas para aceder a ela, é uma desistência que revela uma menorização dessas capacidades e competências. O que não deixa de ser paradoxal, tendo em conta que vivemos no mundo da desinformação, onde as capacidades de interpretação de camadas de significado cada vez mais complexas se tornam tão fundamentais.
Na semana passada, uma cidadã norte-americana venceu uma dura litigância com a Meta e o YouTube por danos para a sua saúde mental. É cada vez mais conhecido o impacto de certos elementos dos dispositivos digitais que diariamente usamos nas nossas capacidades intelectuais. Em particular, a perda de capacidades de concentração, de desenvolvimento de raciocínio e articulação discursiva são alguns dos efeitos de uma exposição excessiva a conteúdo audiovisual desenhado para viciar o nosso cérebro.
Ora, isto deveria merecer uma reflexão ao nível do ensino sobre a valorização da leitura, em particular de obras literárias que nos permitem conhecer o mundo na sua complexidade e adquirir capacidades de o descodificar, com todas as suas manhas, ironias e significados ocultos. Optar pelo inverso, é prosseguir um caminho perigoso, que prejudica a formação de cidadãos atentos e autónomos, com consequências para a qualidade da nossa democracia. E, mais do que isso, um caminho que desvaloriza o entendimento do humano num tempo em que ele é tão crucial perante o avanço imparável da máquina.
Não deixa também de ser curioso que, num tempo de exaltação patriótica, se avance tanto na despromoção da cultura portuguesa – mas essa é a grande ironia do nacionalismo contemporâneo, que parece desprezar, tão pouco atento ao que as nações produzem.
Publicado no nº 1394 d’O Ilhavense,
de 1 de abril de 2026.
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