Para não dizer que não falei das flores

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Durante muito tempo fui para a cama cedo – como o Marcelo (o Proust, não o outro) – mas agora deito-me mais tarde. Entre congeminações conspirativas e a elaboração destas crónicas, pouco tempo de sono me sobra. Mas levanto-me cedo, ainda assim. Quando consigo, antes de começar o meu dia laboral, desço a rua João de Deus e dirijo-me a um dos dois melhores minimercados do país, que pontificam ambos na cidade de Ílhavo, para ganhar ânimo e adquirir frescos.

A D. Teresa e a D. Rosa mantêm, não muito longe uma da outra, dois dos lugares mais agradáveis do cosmos. Donas de um profundo conhecimento de cada cara que lá se vai abastecer, aconselham com honestidade e inteligência o que se deve ou não levar em cada dia, se as cerejas estão rijas como gostamos ou se o melão é demasiado maduro para o nosso gosto – afinal, devemos ser sempre selectivos com os melões que levamos para casa.

A fruta tem sempre outro aspecto, aqui. Opto sempre pela da época; vou ao primeiro gomo da tangerina, como ensina o Sérgio Godinho ou à minha maçã de Junho, como ensina o Jorge Palma – e bendito esse proibido fruto, que sempre vai afastando de nós os doutores e seus ditados. No Verão, são os pêssegos. Canarinhos maracotões ou ergonómicos paraguaios ou, até, os carecas. De saber ou de sabor. Há poucas coisas que cheguem aos pés de trincar um pêssego debaixo do salvador verão de São Salvador.

Num desses dias, de pêssegos ao final da tarde, os pés levaram-me à Rua da Saudade no sentido, talvez, da morada de quem me ensinou a gostar tanto de ir a minimercados. À porta, leio um aviso dirigido a quem tem andado a furtar flores das sepulturas, para que não prossiga com tal prática. O que me leva a questionar: a quem se rouba quando se roubam as flores de uma sepultura? Nunca saberei responder, mas que é um baixo crime, disso não tenho dúvidas.

Há destas frutas que nos dão vitaminas existenciais, mas quem as come não evita minas existenciais. São coisas que talvez nos devessem roubar mais sono.

Outro dia fui com a Inês, que sabe escolher fruta melhor do que eu – menos o melão, no qual somos igualmente incompetentes. Enchemos sacas de tantos quilos que dariam para fazer de novo toda a poesia do Cesário Verde. À porta, surgiram dos baldes umas flores muito agradáveis que não aguentariam vivas mais um dia. Não há nada mais triste do que flores defuntas. Deitámos-lhes, por isso, a mão, empenhados na sua sobrevivência. Pegámos nas nossas compras e fomos para casa, rua fora. Com o sol nos olhos e as flores nos braços. Embriagados de lírios.

 

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