Eternidade

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O que caracteriza os Gomes? Somos possuidores de uma vontade férrea, boa disposição chegando a roçar o gozo, temos capacidade e força suficiente para enfrentar qualquer batalha, somos sensíveis, de memória pronta e língua afiada, procuramos uma perfeição tantas vezes imperfeita, estamos atentos quando parecemos perdidos, sofremos em silêncio, sorrimos com os olhos quando a alma chora, somos imparáveis. Mas, acima de tudo encontramos nos locais mais improváveis a energia de que necessitamos para retemperarmos as forças.

E, no entanto, como acontece com todas as famílias, somos fiéis depositários das Graças que recebemos em vida. Porém, o que fazemos com elas nunca é suficiente, quando nos apercebemos que as temos torna-se demasiado tarde.

Faz parte da natureza humana passarmos pelo purgatório terreno e será no final do percurso que as nossas acções ditarão o nosso destino. Se subimos a escadaria do Céu ou descemos o elevador do Inferno.

Considero-me afortunada pela dádiva que me foi concedida. Agradeço-a e reconheço-a na minha avó Maria Madalena Celestino Gomes. Infelizmente vivi iludida pensando que a sua presença seria eterna, não a aproveitando como o deveria ter feito. E num piscar de olhos, o tempo que nos foi prometido acabou deixando-me vazia do seu inesgotável amor.

Outubro para mim é o mês em que agradeço a minha existência e repudio a ausência desta fantástica mulher, a quem mais do que avó tive o privilégio de chamar mãe.

Já não celebro aniversários ou qualquer festividade que fazia parte da longa tradição familiar, a partir do momento em que deixei de sentir o calor da mão que me segurava com a sua soalheira tenacidade. Andei perdida sem a luz que dela irradiava até me aperceber que na escuridão conseguia ver as estrelas e muito para além delas.

O que o tempo me ensinou foi que devo continuar a agradecer o bom e o mau. Porque é deste modo que sou colocada à prova e serão as minhas decisões que ditarão o meu futuro.

Por todos estes motivos agradeço diariamente.

Agradeço o nascer do Sol.

Agradeço a companhia da Lua nas minhas longas horas de trabalho.

Agradeço o facto de estar viva, ter saúde, amor, família, amigos, os meus companheiros de quatro patas.

Agradeço pelo tempo que tenho.

Simplesmente agradeço.

Dizem que com o passar dos anos a tristeza desaparece, a saudade é atenuada pelas boas recordações, que nos devemos limitar a reviver os melhores momentos.

É tudo mentira!
Passe o tempo que passar, fica sempre uma mágoa que nos arde nos olhos, nos aperta o coração e nos deixa sem ar.

A tristeza da ausência não passa, a saudade aumenta, mas agora esconde-se discretamente no canto mais recatado e escuro dos nossos sentidos.

Para o resto da vida sentiremos a sua ausência, juraremos ouvir chamarem-nos, o seu odor, o seu riso, lembrar-nos-emos de uma piada e daremos por nós a sorrir. O sofrimento será atenuado impulsionando-nos a viver cada dia como se fosse o último. As recordações, essas ficarão connosco para sempre.

Gostava de terminar, com o meu mais sentido pesar à família de José Manuel Torrão Sacramento, um ilustre ilhavense que nunca será esquecido. Pelos laços que criou, pela sua nobreza de carácter, dedicação, altruísmo e força. Obrigada pelas conversas que trocámos, ainda que nunca nos tivéssemos conhecido pessoalmente.

Sem a sua dedicação obstinada, “O Ilhavense” não chegaria onde está hoje, cada dia mais perto da celebração do seu centenário. Acredito piamente que apesar de não estar fisicamente presente ficará na lembrança de todos e a sua alma prevalecerá para sempre no coração dos que consigo privaram.

À sua família gostava de dedicar as palavras da minha tia Silvina quando perdeu o marido, João Carlos Celestino Gomes:

“Mas na realidade desta dor imensa, dor muito maior do que a felicidade perdida, existe uma força inconsciente que me ajudará a realizar os teus desejos de ausente da vida e há-de convencer o Destino da inutilidade de tentar separar-nos, pois são para ti todas as minhas horas vivas e para mim, esperando-me, as horas da tua Eternidade”.

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