O Casamento

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A Margarida andava a contar os meses, as semanas e os dias até ao dia da chegada do seu noivo que andava na faina do bacalhau.

No último mês olhava e tornava a olhar enlevada para o vestido que iria levar no dia do seu casamento. Depois de ajudar a mãe a arrumar a cozinha e preparar alguma coisa para a merenda do outro dia, ia para o seu quarto, deitava-se ainda vestida em cima da cama, fechava os olhos e, sonhava sem limites com o seu Pedro.

A arca feita de madeira simples ao fundo do quarto, tinha o seu enxoval que começara a fazer aos quinze anos, tinha sido prenda de anos do seu pai, depois de ter vindo de uma viagem. Para ela era o esforço do trabalho desde que tinha começado a trabalhar, foi aí durante a estadia de um barco, que tinha olhado para o seu noivo pela primeira vez e desde esse dia pensaram subir os dois ao altar. Era a milionésima vez que olhou para os lençóis bordados por ela com a ajuda da tia, os panos da cozinha com o picô e as rendas para os móveis da casa. Não via o dia para usar tanto trabalho, tantos serões e tantas tardes de domingo, de tanta espera…

– Oh filha! não te apoquentes, eu passei pelo mesmo e o teu pai chegou a tempo, vais entrar na igreja no dia marcado e vais esquecer todos os medos de hoje, todas as mulheres dos homens que andam ao mar já passaram e vão passar sempre pelos mesmos receios, angústias e tristezas. Filha eu sei bem o que isso é, oh se sei!

Além de tudo, estava a Ti Augusta falada para ir fazer o almoço da boda, coisa simples, os convidados eram a família mais chegada e uns poucos de amigos, não tinham nem espaço nem queriam despender de todas as economias que lhes custaram tanto a forrar!

Adormeceu e mal se precatou, entrava na igreja pelo braço do seu pai, ouvindo lá ao fundo a sua mãe a tentar abafar o fungar limpando disfarçadamente as lágrimas que lhe molhavam a cara. Já era outono avançado mas o dia parecia estar a pedido, o sol brilhava, até a brisa que se fazia sentir era um pouco abafada, fazia levantar as folhas douradas caídas das árvores que ladeavam a igreja, a Margarida e o Pedro eram a imagem de dois jovens que embora tivessem muito que trabalhar, ele na faina, ela na seca, iriam perpetuar a vida das mulheres dos homens que andam ao mar.

A alegria da Margarida contrastava com uma lágrima aqui e outra mais além da mãe, a vida ia repetir-se, saídas, chegadas, o tratar da roupa da viagem, fora o tratar da casa e mais tarde dos filhos, a vida é uma roda, lá diziam as mulheres.

Será por tudo isto que o mar é tão salgado!?

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