Desde muito novo que ouvia falar de Ílhavo, mas confesso que nunca me passou pela cabeça que um dia viria para cá residir. A vida dá muitas voltas e quando menos se espera o inesperado acontece. Quando há muitos anos cheguei a Aveiro para ajudar a abrir a dependência de um Banco que já não existe, na equipa estava um ilhavense. Nunca vi ninguém mais bairrista. Tinha – falo no passado, porque esse colega e amigo já não está, infelizmente entre nós, – dois amores: A sua terra natal e o Belenenses. Que ninguém dissesse mal de nenhum deles. Caía o Carmo e a Trindade.

Ílhavo é uma cidade conhecida por esse mundo fora. Terra de marinheiros bravos e de uma coragem digna do maior respeito e consideração. Por isso, nesta primeira colaboração neste jornal, quero dedicar a esses homens, que deixando tudo para trás, desafiaram e desafiam as águas do mar, nem sempre calmas e serenas. Ondas alterosas, tempestades, naufrágios, o mar a envolvê-los e o coração cá longe a pensar nas famílias, razão primeira dessa luta desigual contra a fúria de águas mortais. Os dóris, esses barcos dos solitários, daqueles que em pleno mar, sozinhos, pescavam o «pão que o diabo amassou.» Quantos lá ficaram, quantos não saborearam o regresso ao abraço das mulheres e dos filhos!

No outro dia, em conversa com um «velho lobo do mar» ele dizia-me: «não sabe como eram os dóris, não? Leia aqui neste livro». Li e transcrevo:

“Os pescadores dos dóris trabalhavam em barcos de 5 metros e meio, por vezes a 120 milhas da costa. Medido pelo fundo, tinha pouco mais de 4 metros e de boca metro e meio. Desenhado para carregar peixe, eles eram ásperos, manobráveis, baratos e facilmente empilháveis no convés. O fundo chato ajudava na ondulação e extremidades altas tornavam-nos mais navegáveis e fáceis de manobrar quando carregados. Os dóris tinham duas extremidades, embora a popa tenha uma superfície à qual chamam de “lápide”. Através da popa havia um buraco, deixado aberto com os dóris empilhados pelo qual escorria a água. A tampa deste buraco também continha um orifício por onde passava um pedaço de corda atada em forma de laço por fora. Tal permitia ao pescador algo a que se agarrar em caso do dóri se virar.”

Era preciso muita coragem. A pesca hoje será diferente da dos anos 30 e 40 do século passado, mas o mar é o mesmo. As dificuldades poderão ser torneadas de outra maneira, mas o perigo está lá.

Foi para esta terra que eu vim residir. E ainda bem que o fiz. Neste primeiro contacto consigo, caro Leitor, permita-me esta saudação. Ílhavo tem na sua História, Mulheres e Homens, que da «lei da morte se foram libertando». Salientaram-se nas diferentes áreas da nossa sociedade. São imortais. Mas há os anónimos, aqueles de quem a História não fala, que não têm nome de rua, mas que de igual forma lutaram na vida com armas desiguais, morrendo com a dignidade que só os grandes têm. Não menciono nomes, porque temo esquecer alguém.

Hoje agradeço a todos os que deram a vida, ou que muito sofreram, para que o bacalhau possa ser um dos pratos preferidos de todos os portugueses.

Na noite de Natal e em todos os dias do ano.

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