O velho que costumava estar sentado no banco do jardim

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“Passam os dias e sentes que és um perdedor
Já não consegues saber o que tem ou não valor
O teu caminho parece estar mesmo a chegar ao fim
Para dares lugar a outro no teu banco do jardim
O olhar triste e cansado procurando alguém
E a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém
Sabes eu acho que todos fogem de ti p'ra não ver
A imagem da solidão que irão viver
Quando forem como tu
Um resto de tudo o que existiu
Quando forem como tu
Um velho sentado num jardim.”

Mafalda Veiga | "Velho" | "Pássaros do Sul" (1987)
Maria José Santana (Diretora d’O Ilhavense)

Não me recordo de nenhum outro texto que conseguisse caracterizar tão bem a imagem que todos tínhamos da velhice. Não foram precisas muitas palavras para a canção de Mafalda Veiga traçar a dura realidade. Envelhecer rimava com solidão, com tristeza, com cansaço. “Um resto de tudo o que existiu”, reforça a letra da música, que era, no fundo, o retrato de muitos dos nossos jardins, das nossas praças.

Felizmente, hoje a realidade é outra. A evolução dos tempos trouxe-nos um fenómeno a que vão chamando de envelhecimento ativo e saudável. Eu prefiro chamar-lhe um envelhecimento feliz. Os velhos já não estão prostrados nos bancos de jardim, nem nos sofás. Voltaram a estudar, praticam atividade física, fazem voluntariado e ainda arranjam tempo para ajudar a criar os filhos dos filhos.

Os velhos de hoje deixaram de ser o resto do que já existiu para serem o melhor daquilo que já existiu. Mais do que uma condicionante, a chegada da idade da reforma ou da velhice, é encarada como uma oportunidade para fazer tudo aquilo que não se teve tempo, até então, de fazer.

Como é bom ver os nossos velhos alegres, ativos e dedicados aos semelhantes. Felizes dos que estão a envelhecer bem, a conseguir acompanhar a mudança dos tempos, recusando ceder ao pensamento antiquado de criticar tudo o que é moderno e novo.

Tudo isto a propósito de Festival Cabelos Brancos, iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Ílhavo e à qual damos destaque nesta edição. Um evento que acaba por desconstruir, ele próprio, os clichés em torno da velhice e dos eventos organizados e projetados para os seniores.

Preparar um programa dedicado aos mais velhos não se limita apenas a promover meia dúzia de passeios em autocarro. E a prova aí está, uma vez que este festival vai muito além disso. O programa também prevê exposições, reflexões, concertos, projetos comunitários e desporto, entre outros.

E por falar em idade, nesta edição também olhamos para a comemoração do 50.º aniversário da Heliflex. A empresa, que se dedica à produção de tubos e mangueiras, foi a primeira unidade a instalar-se na Zona Industrial da Mota, na Gafanha da Encarnação, inaugurando um espaço industrial que viria a expandir-se nas décadas seguintes. Não parou de crescer e hoje emprega mais de uma centena de colaboradores, trabalha com uma vasta carteira de clientes e está presente em mais de 50 países. É caso para dizer: a idade é um posto.

Nota de pesar

Foi já em hora de fecho desta edição que tivemos a notícia do falecimento do anterior diretor d’O Ilhavense, José Manuel Torrão Sacramento. Em nome de todos os elementos da redação, fica uma sentida homenagem ao Sr. Sacramento (sempre o tratei desta forma) por todo o seu empenho e persistência na manutenção deste título quase centenário. Um reconhecimento que é também sentido pelos restantes elementos da equipa (administração e gerência) que desde abril assumiu a missão de ressuscitar O Ilhavense. Muito obrigado. À família, as nossas sentidas condolências.

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